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Uma Certa Quietude de Edgar Martins

Nasceu, há 30 anos, em Évora mas cedo deixou Portugal rumo a Macau, onde cresceu. Vive, desde 1996, no Reino Unido
onde estudou e iniciou um sólido trabalho artístico, aí contribuído activamente para a renovação do conceito de
fotógrafo autor. Entre exposições, seminários e edições de livros, Edgar Martins – comissário e autor - não tem mãos a
medir.
(Londres Jan.08) O que mais impressiona no trabalho de Edgar Martins é um certa quietude nas suas imagens. Oriundo de meios
cosmopolitas plenos de ruído visual, com que sempre co-habitou, Edgar encontrou o campo perfeito para o seu olhar na
ténue fronteira entre o urbano e o suburbano, esse “não lugar” tão dificilmente operacionalizável. As suas imagens
espelham o indizível, criam espaços de projecção para o eu individual, cativam o espectador reservando-lhe o supremo
papel da interpretação. Contemplar uma das suas imagens é reportar a um tempo em que o olhar se constitui como factor
primordial, onde a técnica, que domina com mestria, se esbate e o lugar à multipla interpretação ganha protagonismo.
Quando Edgar fala sobre o seu trabalho tudo se torna mais claro. Há no seu discurso uma lógica e uma segurança
invulgares, uma extraordinária capacidade de transmitir conceitos apenas tangível a quem possui já uma invejável
maturidade.
A uma formação de base em filosofia, obtida em Macau, somou Edgar, em Londres, um bacharelato em fotografia e ciências
sociais e um mestrado em fotografia e belas artes, obtido no Royal College of Arts. Ainda hoje sorri quando falando da
sua chegada à fotografia defende que a mesma foi, de certo modo, acidental. “A surpresa foi não ter seguido uma carreira
literária mas sim uma carreira ligada às imagens”.
Foi em Macau, aos 19 anos, que editou, - fruto das suas múltiplas leituras filosóficas -, o seu primeiro livro
intitulado “Mãe, deixa-me fazer o pino”, “um diário de um adolescente em vias de dar os primeiros passos na vida”.
Os seus maiores interesses “sempre foram a filosofia e as ciências urbanas”, a fotografia revelou-se uma consequência
natural da sua “escrita baseada em visualizações” que acabou por desenbocar num universo imagético “baseado em questões
literárias”.
A sua paixão pelos livros encontrou na fotografia o objecto ideal. Edgar concretizou, com a cumplicidade da editora
“The moth house”, o seu sonho de criar obras editoriais “que se afastam do formato tradicional do livro” e onde a
liberdade para produzir narrativas específicas vai ao encontro da sua convicção de que “um livro não deve dar demasiada
informação ao leitor pois corre-se o risco de acabar por se condicionar a leitura das imagens”.
Hoje Edgar não dispensa o livro na sua lógica de produção artística, defendendo-o como meio maior, que lhe permite
conjugar textos e imagens da forma que mais lhe agrada. “Eu trabalho por projectos, O livro é um meio fantástico, um
foco tão importante como a exposição.” É também através desse meio que Edgar exerce uma das outras funções que muito lhe
agrada, a de comissário, gozando de plena liberdade para convidar quem assim desejar para participar nos seus livros.

Representado por quarto galerias – “La caja negra”, em Madrid, “The Photographer’s Gallery”, em Londres, “The Betty
Cuningham Gallery”, em Nova Iorque e a “Galeria Graça Brandão”, em Lisboa e Porto – Edgar Martins tem exposto regular e
extensivamente na Europa e na Ásia, coordenado, sempre que possível, seminários sobre os seus projectos e recebido
numerosos prémios pelo seu trabalho literário e fotográfico. Expôs recentemente, na Galeria Graça Brandão em Lisboa, 12
das 50 imagens do seu mais recente projecto “Aproximações”, resultante de uma encomenda da ANA- Aeroportos de Portugal.
Em “Aproximações” Edgar evitou uma abordagem documental, continuando fiel à sua linha de trabalho pessoal, com a
representação fotográfica dos espaços invisíveis a público, dos aeroportos de Santa Maria, Horta, Ponta Delgada, Flores,
Faro, Porto e Lisboa, valorizando assim o “seu lado mais surreal” com claras aproximações aos seus “não lugares” das
anteriores séries fotográficas. Ancoradas na “linguagem dos aeroportos” as imagens geram com grande beleza um sentimento
de solidão, fora do tempo e do espaço que marca a frenética concepção geral de um aeroporto.
Feliz pelas oportunidades que lhe têm surgido, Edgar continua concentrado no seu trabalho e ocupado como sempre,
preparando agora o lançamento da sua nova monografia, a lançar em Março de 2008 em Nova Iorque, pela Aperture Books.
Texto e fotografias de Susana Paiva
Imagens da série “The accidental theorist” gentilmente cedidas pelo autor
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